Estudo produzido no curso teológico da IPC.
1.Como enxergamos o mundo? a natureza da visão.
i) O que significa ver a
realidade? A definição aceite de visão= ter acesso às coisas
e percebê-las tal como elas
são. O sujeito capta as coisas tal como elas são realmente.
ii) Contudo, esta definição
é incoerente. Exemplo: encontro de Jesus com Pilatos
(Jo.18: 37-38) O que é que
aconteceu neste encontro? Encontro de Jesus com o cego? Por que razão Jesus
teve que curá-lo duas vezes? Por que ele via os homens como árvores.
Em Gênesis 3 temos outra
discrição que nos leva à conclusão de que não percebemos as
coisas como elas são, mas o nosso olhar é já um olhar
interpretativo a partir de crenças
que possuímos acerca da
realidade.
Não enxergamos o mundo de
uma forma neutral. Fazemo-lo a partir de um
conjunto de crenças que
funcionam como lentes. Então, ver = lente =interpretar=
construir o mundo a partir de
crenças básicas que possuímos = que determinam a forma
como vemos, pensamos e agimos
no mundo.
Este exemplo do encontro de
Jesus com Pilatos deve-nos encorajar a avaliar
a
forma como “enxergamos o
mundo”: quais são as
categorias/suposições/ crenças a
partir das quais
interpretamos o mundo? Será que nós enxergamos o mundo como
Cristo o vê?
Outro exemplo: O relato de Marcos 6:34, da multiplicação dos pães,
demonstra
que é possível que os
discípulos de Cristo não vejam o mundo como Cristo o vê!
Pergunta pratica: quais são as crenças a
partir das quais vemos, pensamos e
agimos no mundo? São
verdadeiramente cristãs?
Esta avaliação da forma como
enxergamos e relevante porque fomos chamados
por Deus para sermos profetas
(apontar as falsidades e revelar a verdade) para a nossa
1
cultura. O profeta no A.T. e no
N.T é aquele que enxerga como os olhos de Deus a sua
sociedade, para derribar a
falsidade e construir a sociedade em cima da verdade de Deus.
Mas, como será possível se
não enxergamos o mundo como Cristo o enxerga?
2. Enxergamos a
partir de crenças básicas:
O homem é constituído de
crenças básicas (pressupostos) e disposições, com os
quais foi criado, e que o
levam a enxergar e a interpretar o mundo de uma determinada
maneira.1
As crenças são diferentes
de sentimentos ou de opiniões porque fazem uma
reivindicação cognitiva,
isto e, pressupõe algum tipo de conhecimento, e um forte
compromisso com algo.
Exemplo: a) Creio que o Joao chegara tarde hoje. B) Creio na
instrução como caminho para
a felicidade. Portanto, uma crença define-se como uma
convicção que temos sobre
as coisas.
Quais são as crenças básicas
que temos sobre as coisas.... As crenças básicas
sobre as coisas referem-se as
convicções profundas que temos sobre as questões
fundamentais da existência.
Exemplos:
1. De que maneira o mundo e
tudo o que nele há vieram a existir?
2. O que é a realidade em
termos de conhecimento e verdade?
3. Como funciona ou deveria
funcionar o mundo?
4. Qual é a natureza do ser
humano?
5. Qual é o propósito da
vida de cada um?
6. Como deveríamos viver?
7. Há alguma esperança para
mim no futuro?
8. O que acontece quando
morremos? E após a morte?
9. É possível conhecer
realmente tudo?
2
1 Isso não significa que essas crenças não tenham sido moldadas e
retrabalhadas , posteriormente, pela
educação, cultura e sociedade
circundantes.
10. Como saber o que é
certo e o que é errado?
11. Qual é o sentido da
história humana?
12. O que o futuro nos
revela?
A resposta a estas questões
da-nos acesso as crenças e convicções básicas que
temos sobre as questões
fundamentais da existência,
Outra dessas crenças é, por
exemplo, a inclinação para conhecer a realidade em
termos uma unidade racional,
e não em termos de caos; ou a pressuposição de que existe
uma verdade, o belo, a
justiça, e que, portanto, devem ser procurados e experimentados.
3. As crenças
básicas tendem a formar uma estrutura e um padrão: as
crenças formam uma
unidade (sistema de valores), um cosmos.
Reconhecemos, geralmente,
que devemos ser consistentes nas nossas crenças se
queremos que nos levem a
serio. Não adotamos um grupo arbitrário de crenças básicas
sem coerência ou aparência
de coerência.
O estudo de uma visão de
vida de uma pessoa, de um povo ou de uma cultura nos
revelará é que estas
crenças e disposições básicas não atuam de forma separada, mas
dentro de uma unidade
(cosmos), ou seja, dentro de um todo orgânico e sistemático.
Chegamos, então, ao conceito de cosmovisão
= Cosmos + VISÃO= um olhar
interpretativo a partir de
crenças organizadas num sistema lógico, consciente ou
inconsciente.
3
Numa outra definição
possível de cosmovisão: refere-se a estrutura compreensiva
da crença que uma pessoa
sustenta sobre uma coisa ou um conjunto de coisas.
Exercício: será que as
crenças básicas (lentes) a partir das quais enxergamos o
mundo a) formam uma unidade
coerente...b) são verdadeiramente cristãs?
Aplicação: Muitas vezes,
cremos em Deus, mas nosso sistema de pensamento
contém ainda outras
crenças-não cristãs, e que fazem como que não exerçamos, com
plenitude, nosso ministério
profético.
4. Relação entre
cosmovisão e Escritura: nossa cosmovisão deve ser moldada e
testada pelas Escrituras.
4
5. Por que é que
estudar uma cosmovisão é importante?
Num primeiro nível, uma cosmovisão atua como
guia para a nossa vida:
consciente ou
inconscientemente funciona como um mapa, uma bússola que nos orienta,
dando-nos a noção daquilo
que e positivo e negativo, certo ou errado e valorizando os
fenômenos. Nossa cosmovisao
molda a forma como valorizamos os acontecimentos
funcionando como um credo
orientador para a tomada de decisões.
Em segundo lugar, academicamente, e como
cristãos, veremos como o
conhecimento da cosmovisão
cristã, comparativamente às outras cosmovisões,
demonstrará a singularidade
da nossa cosmovisão, além de justificar por
que é que o
cristianismo é o único
sistema de pensamento e de crença que se auto-sustenta. Exemplos
de “choques de
cosmovisões”: 1 Rs 18:20-40 (Elias no Monte Carmelo); Mateus
16:13-17 (O que se diz
sobre Jesus?); Atos 17:16-31.
Por outro lado, ao
estudarmos as cosmovisões que determinam o olhar do mundo,
identificaremos, igualmente,
os erros e auto-enganos que persistem na nossa alma, cultura
e prática de vida cristã,
permitindo-nos uma vida examinada (Cl 2:8).
Desta forma, estaremos
possibilitados a derrubar todas as visões de
mundo que
resistem, como sofismas, à luz da verdade de Jesus
Cristo. Neste sentido, conhecer as
cosmovisões é um trabalho
prévio que a apologética defensiva e ofensiva deve efetuar.
Outra razão que torna este estudo
relevante é a necessidade de discernirmos os
tempos: Lc 12:56; Ef. 5:15-16.
Cada movimento em direção a algo novo distancia-se de
alguma coisa existente. Se
há uma nova cosmovisão sendo formada, o que é que está
sendo substituído por ela?
Como alguém disse: “Há muitos universos
conceituais e verbais. Alguns pairam à
nossa volta por um
longo tempo; outros estão apenas se formando. Qual é o seu
universo? Quais são
os universos que o rodeiam?”.2 Todos possuem uma
cosmovisão e
vivem de acordo com a
mesma. Mas nem todos, porém, são conscientes disso. Noutras
5
2 Op. Cit. ibidem, p. 24.
palavras, o estudo das
cosmovisões permite a auto-conscientização, o auto-conhecimento,
e o auto-entendimento.3 (2 Tm 2: 25-26)
Por fim, a eficiência do processo de comunicação da fé
cristã exige o
conhecimento das cosmovisões,
ou seja, a capacidade de compreender as codificações e
descodificações das
mensagens correspondentes a visões do mundo, e que são veiculadas
pelos mídia em geral e pelo
imaginário de um povo ( 1 Cr. 12:32).
6
3 Cf. ideia. O universo ao lado.p.21.
By Felipe Canosa
Pastor da Ipc.